Black Monday da NFL: Avaliando o carrossel de treinadores

Vic Fangio, Brian Flores, Matt Nagy e Mike Zimmer não resistiram ao final de temporada

O final da temporada regular da NFL anuncia a chegada da tenebrosa Black Monday. Os times que não conseguiram vagas nos Playoffs analisam o desempenho da equipe e comissão técnica e começa o início das demissões. GMs e treinadores são os primeiros a sofrerem com os cortes. 

Oficialmente, as demissões começaram no domingo, já que o Denver Broncos encerrou sua temporada no sábado à noite com uma derrota por 28 a 24 para o Kansas City Chiefs. Vic Fangio não resistiu e acabou demitido após terminar na última posição da AFC Oeste, com sete vitórias e dez derrotas. 

Entre os GMs, Rick Spielman (Minnesota Vikings) e Ryan Pace (Chicago Bears) foram demitidos, enquanto Dave Gettleman anunciou sua aposentadoria após um desastroso desempenho com o New York Giants. Na posição de Head Coach, Brian Flores (Miami Dolphins), Mike Zimmer (Vikings) e Matt Nagy (Bears) foram mandados embora nessa segunda. 

Brian Flores – Miami Dolphins

A demissão do Brian Flores foi a grande surpresa da Black Monday. O que torna seu corte tão estranho é o momento da demissão. O head coach parecia destinado a deixar o cargo no começo da temporada 21/22. Na semana 8, os Dolphins eram um dos piores times da NFL, com apenas uma vitória. Apesar do começo tenebroso, a franquia conseguiu um milagre e venceu sete jogos seguidos. Ao entrar na semana 17, Miami tinha chance de Playoffs e um recorde 8-7. Flores até começava a se apresentar como um candidato para o prêmio de técnico do ano, apesar de não ser o favorito. 

Naquele momento, parecia que seu emprego estava salvo. O treinador conseguiu motivar os jogadores a uma virada histórica e manteve o time vivo em um ano que parecia perdido. Mas a semana 17 foi determinante para Brian Flores e os Dolphins. Miami foi amassado em uma derrota de 34 a 3 para o Tennessee Titans e ficou de fora de mais uma pós-temporada. Nem mesmo uma vitória sobre o grande rival New England Patriots por 33 a 24 na última semana da NFL mudou a ideia da direção dos Dolphins. 

Segundo o repórter da ESPN, Jeff Darlington, a queda de Flores se deve aos relacionamentos que se deterioraram durante a temporada, principalmente com o GM, Will Grier e o quarterback, Tua Tagovailoa. O treinador constantemente bateu cabeça com Will Grier durante a temporada, e a relação entre os dois se tornou cada vez mais tensa. Além disso,  Grier apostou em Tua, mas naquele mesmo Draft Flores queria draftar Justin Herbert, que saiu para o Chargers. No final, a franquia optou por manter o GM, que ganhou crédito após um brilhante Draft de 2021. 

Tua Tagovailoa e Brian Flores ( (AP Photo/Doug Murray)

De fato, Tua e Flores nunca estiveram na mesma página, o que ficou claro quando o treinador bancou o QB em duas oportunidades na temporada 20/21, contra os Broncos e os Raiders. Flores chegou admitir em diversas coletivas que Tagovailoa era o QB da franquia e que tinha total fé no jogador, mas nunca conseguiu convencer o público que este era o seu real pensamento. Isso ficou evidente quando o Head Coach optou por deixar Tua no banco na partida contra o Baltimore Ravens, mesmo com o quarterback tendo condições para começar a partida. Além disso, Flores era uma das forças dentro da franquia que buscava um negócio para adquirir Deshaun Watson. No final, John Ross, dono do Miami Dolphins, não via a situação de Flores como algo saudável para a franquia. 

Outro fator para a demissão foi o fato de Flores nunca ter chegado nos Playoffs. Em 2020/21, o Dolphins bateu na trave com um recorde 10-6, mas não conseguiu uma vaga no Wildcard, já que Ravens, Colts e Browns tiveram 11 vitórias. Na atual temporada, uma vitória fez a diferença para a franquia. Com um recorde 9-8, o time viu o Pittsburgh Steelers conquistar vaga no Wildcard com um recorde de nove vitórias, sete derrotas e um empate. 

A verdade é que Brian Flores tem culpa no cartório, mas não é o principal responsável. O técnico foi excessivamente conservador em alguns jogos e perdeu partidas para Atlanta Falcons e Jacksonville Jaguars, que de fato custaram a vaga para os Playoffs. E, apesar de um salto de produtividade de Tua Tagovailoa em relação ao seu ano de rookie, o ataque ainda teve muitos problemas, já que a linha ofensiva foi a pior da temporada na proteção de passe e no bloqueio de corrida, segundo as notas da PFF

Fato é que a direção do Miami Dolphins não construiu um elenco de Playoff e é por isso que a equipe não chegou na pós-temporada. Flores herdou um elenco desmantelado e um time mal-treinado por Adam Gase. Olhando para trás, o recorde de 5 vitórias e onze derrotas em 19/20 (primeira temporada de Flores) parece um milagre para uma equipe que começou com Josh Rosen como QB1. E, com todo o mérito do mundo, o treinador transformou aquele time em uma equipe capaz de brigar por vaga de pós-temporada e recolocou os Dolphins no mapa com uma das melhores defesas da NFL.  

Flores agora se torna um dos grandes nomes no mercado e já se tornou candidato para o cargo de head coach do Chicago Bears. Enquanto isso, Miami inicia a busca por um treinador. Dessa vez, alguém que consiga tirar o melhor de Tua Tagovailoa ou consiga criar um ambiente propício para o ataque prosperar. 

Vic Fangio – Denver Broncos

Não ter um QB confiável pode custar o trabalho de um treinador na NFL. Vic Fangio sabe disso melhor do que ninguém. De fato, ele não fez um bom trabalho no comando do Denver Broncos. Em três temporadas com a franquia, Fangio registrou 19 derrotas e 30 vitórias e não chegou perto de brigar por uma vaga na pós-temporada. 

Dá pra dizer que os Broncos não chegaram nos Playoffs por culpa de Fangio? NÃO. 

O treinador nunca teve uma chance. Na sua primeira temporada (2019/20), ele assumiu um time comandado por Joe Flacco, que registrou seis touchdowns e cinco interceptações em oito jogos como titular. Com esse desempenho horrível de seu quarterback é quase impossível ganhar na NFL e, de fato, Fangio obteve apenas duas vitórias em suas oito partidas. 

Após a lesão de Flacco, Drew Lock assumiu e deu ânimo à equipe, que acumulou quatro vitórias sob o comando do novato. Uma lesão no jogador acabaria com as esperanças nos Playoffs, mas deixaria a torcida animada para o time que seria liderado por Lock, que registrou sete touchdowns e três interceptações. O ano seguinte, pórem, foi absurdamente decepcionante, com Drew Lock tendo o pior desempenho dos 32 quarterbacks que começaram a temporada. Em seu segundo ano, o quarterback acertou apenas 57,1% dos passes e registrou 16 TDs e 15 interceptações, atrás de uma das melhores linhas ofensivas da NFL. 

Para ter uma campanha positiva na NFL é necessário ter no mínimo um QB mediano e, para isso, o Denver Broncos adquiriu Teddy Bridgewater antes de 21/22. Mas Teddy atuou abaixo do esperado e, mesmo assim, Denver seguia na briga pelos Playoffs com um recorde de sete vitórias e seis derrotas ao final da semana 14. A lesão de Bridgewater na semana 15 contra os Bengals acabaria com as chances de Denver, que viu Drew Lock assumir a posição e terminar a temporada com três vitórias seguidas. 

No que tinha mais controle, Vic Fangio obteve ótimos resultados. O antigo coordenador defensivo conseguiu produzir uma boa defesa, terminando 2021/22 como o terceiro time que permitiu menos pontos na NFL (18,1), ficando atrás apenas de Bills e Patriots. Pensando que Fangio teve que enfrentar Patrick Mahomes, Justin Herbert e Derek Carr duas vezes na temporada, a estatística se torna impressionante. Além disso, os Broncos foi o oitavo time que permitiu menos jardas em toda a temporada, com os oponentes acumulando 326,1 jardas por jogo. 

Analisando o elenco de Denver, Vic Fangio tinha muito a disposição. Uma das melhores linhas ofensivas da NFL, um bom corpo de recebedores e um grupo sólido de running backs. Na defesa, talento em todos os setores, liderada por um grande desempenho da secundária em 2021/22. Dessa forma, dava para esperar um desempenho melhor do time de Fangio. 

Antes de trocar de treinador, o Denver Broncos precisa encontrar uma solução estável para a posição de quarterback. Caso isso não aconteça, o próximo técnico pode acabar tendo um final similar ao de Vic Fangio no comando do time. 

Mike Zimmer – Minnesota Vikings

Mike Zimmer foi o técnico mais longevo a perder o emprego na Black Monday: foram oito temporadas comandando o Minnesota Vikings, com 72 vitórias, 56 derrotas e um empate em seu primeiro emprego como head coach depois de quase duas décadas trabalhando como assistente e coordenador defensivo. A demora pela ‘promoção’ veio muito por conta de sua personalidade, que não é das mais amigáveis. Mas Zimmer sempre foi um treinador sincero com seus jogadores, e seus atletas retribuíram nas temporadas iniciais.

Em seu primeiro ano à frente dos Vikings em 2014, Zimmer conseguiu sete vitórias, duas a mais que na temporada anterior. A temporada seguinte foi ainda melhor, com a conquista  da divisão norte da NFC, após um recorde de 11-5. A passagem na pós-temporada foi curta, com a eliminação para o Seattle Seahawks no Wildcard. 

O auge de Zimmer com os Vikings veio em 2017, quando a equipe conquistou incríveis 13 vitórias e terminou com a segunda melhor campanha da NFC, tudo isso mesmo após perder seu QB titular, Teddy Bridgewater. A campanha nos playoffs parou na final de conferência contra os Eagles, mas gerou talvez o jogo mais memorável da história da franquia: o Minneapolis Miracle, a vitória no último segundo contra os Saints com um touchdown de Steffon Diggs.

A lesão de Bridgewater e a opção por Kirk Cousins em 2018 foram o início da queda de Zimmer. Sem Teddy, ele perdeu um de seus líderes e maiores apoiadores no elenco. A conexão com Cousins nunca foi das melhores, e não ajudava o fato do técnico passar muito mais tempo com a defesa do que com os jogadores do ataque. Para piorar a relação interna, Zimmer encontrou uma enorme resistência de seus principais líderes à vacinação: os Vikings começaram a temporada com a menor porcentagem de vacinação na NFL.

Pela primeira vez desde que havia assumido o cargo de head coach, Mike Zimmer e os Vikings ficaram de fora dos playoffs por duas temporadas consecutivas. O grande problema foi não conseguir reerguer a defesa que em 2020 ele classificou como a pior que teve. Ainda por cima, Minnesota quebrou o recorde da liga de jogos decididos por apenas uma posse: foram 14 no total. A última imagem dos Vikings de Zimmer será de uma equipe capaz de brigar com os melhores e perder para os piores.

Matt Nagy – Chicago Bears

A demissão mais esperada da liga finalmente veio: Matt Nagy não é mais treinador dos Bears depois de quatro temporadas com a equipe. A pressão interna e externa se tornou gigantesca em 2021, principalmente por conta do péssimo desempenho ofensivo do time, seja com Justin Fields, Andy Dalton ou Nick Foles. Um problema que deveria ser resolvido pelo ex-offensive coach do Kansas City Chiefs.

Mas durante seu comando, o Chicago Bears raramente teve bons momentos no ataque. Alguns deles vieram em 2018, quando a franquia finalmente retornou aos playoffs depois de oito anos, com Mitchell Trubisky como quarterback. Naquela temporada, os Bears terminaram com 12 vitórias e apenas 4 derrotas, mas foram eliminados pelos Eagles de Nick Foles depois de Cody Parker errar um Field Goal de 49 jardas.

A expectativa era que, a partir daquela temporada, que rendeu à Nagy o prêmio de Técnico do Ano, o time melhorasse ofensivamente. Porém, a perda de Vic Fangio (curiosamente mais um dos demitidos nesta semana), que deixou o cargo de coordenador defensivo para ser técnico do Denver Broncos, resultou em um declínio da defesa. Em 2018, os Bears tiveram 28 interceptações. Nos 48 jogos seguintes, foram apenas 27.

Do outro lado, o ataque continuou sendo ineficiente sob o comando de Trubisky, o que levou Nagy e o GM Ryan Pace a trocarem uma escolha de quarta rodada por Nick Foles, assumindo um contrato gigantesco. Não deu certo, ainda que a equipe tenha conseguido uma vaga nos playoffs daquela temporada com um recorde de oito vitórias e oito derrotas O final seria mais uma demonstração de um ataque inoperante: uma derrota no Wildcard para o New Orleans Saints por a 21 a 9. 

Matt Nagy e Mitchell Trubisky (Nam Y. Huh/Associated Press)

O Draft de 2021 trouxe as maiores esperanças para os torcedores dos Bears desde o primeiro ano de Matt Nagy na franquia. A escolha de Justin Fields aumentou o peso sobre o técnico. Esperava-se que o treinador fosse capaz de desenvolver o jogador de Ohio State em uma estrela da posição, algo que Chicago procura há décadas. Nagy ainda trouxe Andy Dalton para ser o QB1 da equipe e mentor de Fields em seu primeiro ano.

Mas o problema persistiu, e nem Dalton, nem Fields e nem Foles foram capazes de transformar o ataque da equipe, todos tendo desempenhos irregulares. A pressão dos torcedores cresceu ao ponto de cantos de “Demitam Nagy” serem entoados em um jogo do Chicago Bulls. 

Em quatro anos no comando do time, os Bears tiveram o 21º, 29º, 26º e 24º ataque em jardas por partida. A verdade é que Nagy nunca conseguiu solucionar o problema para o qual foi contratado, e que infelizmente se tornou a cara da franquia: o fraco ataque e a inconsistência na posição de quarterback. A expectativa sobre o futuro de Justin Fields é muito grande, e seu sucessor terá como principal objetivo criar um ambiente e um esquema em que ele possa ter sucesso. 

Autor: Intervalo em 5

Uma nova plataforma esportiva desenvolvida por 5 estudantes de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Outros ângulos do esporte.

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