Mudança de posição e adaptação nos Dolphins: o que esperar de Duzão na temporada 2020 da NFL?

Um ano após chegar na maior liga de futebol americano do planeta, brasileiro trabalha para ganhar espaço e tem altas expectativas para o ano de Miami.

Arte: André Martins. Fotos: Miami Dolphins, Getty e Instagram Durval Queiroz.

“Duzão, o Coach de linha ofensiva é doido por você, ele vai dar o tempo que você precisar para te ensinar e terá paciência. Essa é a oportunidade que nós estamos te dando, é um jeito de você jogar por muitos anos na Liga. Acreditamos em você, só que você tem que confiar na gente. Pega suas coisas que agora você vai mudar pra sala de OL.”

Assim recorda o brasileiro Durval Queiroz Neto a conversa que teve com Brian Flores, head coach do Miami Dolphins, quando foi informado sobre sua mudança de posição, em que deixaria a linha defensiva para encaminhar seu futuro como guard na NFL. Naquele momento, no meio de 2019, ele embarcava no maior desafio da carreira, e que definirá totalmente o seu futuro na liga.

A proposta de mudança de posição veio diretamente de Dave DeGuglielmo, que tinha assumido o cargo de treinador de linha ofensiva em julho do ano passado e queria o brasileiro sob seus comandos. “O coach [DeGuglielmo] falava que ia aprender a falar português se eu trocasse para a OL (linha ofensiva), dizia que tinha uma camiseta pronta para mim e que tinha muito DL (linha defensiva) no elenco”, conta. 

Durante os mais de quatro anos atuando no Brasil, Duzão, como é conhecido, jogou na defesa, na posição de defensive tackle (DT). Porém, ao chegar na NFL, esbarrou com uma outra realidade de conhecimento de jogo, o chamado ‘Football IQ’. “Eu era um DL totalmente capaz de jogar, tão forte como qualquer outro jogador, só que o meu entendimento de jogo era muito ruim, diferente do conhecimento que os atletas têm desde o High School ao College”.

O brasileiro relembra que, quando chegou, dividia o vestiário dos Dolphins com outros 14 Defensive Linemen (DL), incluído o recém-draftado Cristhian Wilkins, selecionado na 13ª escolha do primeiro round no Draft daquele ano. “E adivinha quem era o último no depth chart [profundidade da posição]? Eu”, conta o agora guard da franquia. 

“Quando os jogadores ficaram sabendo da minha história, que eu nunca passei pelo College, eles ficaram meio curiosos. Então, até eu demonstrar que trabalhava duro igual a eles, até conquistar o respeito demorou um pouquinho”, completou.

Para relembrar a passagem de Duzão pelo Brasil. Reprodução: Youtube

Vindo do International Player Pathway Program (Programa Internacional de Desenvolvimento de Jogadores) da NFL de 2019, Duzão tinha vaga garantida por dois anos no practice squad (equipe de treinamento) dos Dolphins, período no qual não poderia ser cortado. Mas tal regra, que visa preservar a adaptação de atletas estrangeiros na liga, não garante minutos em campo nem uma chegada ao elenco principal.

Apesar de todas as dificuldades envolvidas na transição de posição, principalmente naquela etapa da carreira do brasileiro, a decisão foi tomada: “Agradeci a oportunidade e tive que dar esse passo, mesmo sabendo que podia acabar com a minha carreira se eu não conseguisse jogar como OL”.

Com isso, Durval se viu no lado oposto ao que costumava jogar, incorporando a posição que antes tinha de superar e readequar toda a sua mentalidade de jogo. “Como jogador de linha ofensiva, você tem que pensar totalmente diferente e entender tudo que está acontecendo no ataque. Não é brincadeira entender um playbook de linha ofensiva”, enfatiza.  

O desafio é grande para a temporada de 2020, já que a comissão técnica deixou a ele a tarefa de esclarecer suas dúvidas, trabalhar em sua leitura de jogo e entendimento de proteção de passe. Mas o horizonte é promissor: “Eles acham que eu mereço, querem ver se eu consegui aprender o que pediram de mim no ano passado. Vou chegar e provar isso”.

Duzão é o primeiro brasileiro a chegar na NFL vindo diretamente do cenário nacional do esporte, no qual representou a Seleção Brasileira e defendeu as equipes do Cuiabá Arsenal e Galo FA.  No ano passado, a atuação em campo do brasileiro ficou limitada a alguns minutos em um confronto da pré-temporada da NFL. 

No entanto, durante os 16 jogos dos Dolphins em 2019, Duzão integrou o time de treinamentos da franquia e não jogou em nenhuma partida. Agora, para a próxima temporada, ele trabalha para dar o próximo passo: se tornar o primeiro atleta do Brasil, não kicker, a atuar na temporada regular da maior liga de futebol americano do planeta.

Vídeo da NFL Undiscovered – série do Programa Internacional da NFL – sobre Durval. Reprodução: Youtube

A promissora temporada de 2020 dos Dolphins

Após um começo desastroso com sete derrotas consecutivas, a franquia comandada por Brian Flores demonstrou uma interessante reação e ganhou cinco dos últimos nove jogos. A boa impressão deixada para o ano seguinte soma-se ao reforço do elenco de Miami nesta offseason, com as contratações de peças importantes na Free Agency e as 11 escolhas no Draft — com destaque para a chegada do quarterback Tua Tagovailoa, selecionado na 5ª geral e visto como o jogador capaz de resolver os problemas que os Dolphins tiveram com a posição em anos recentes.

Sendo assim, visando proteger o principal investimento da equipe, os Dolphins investiram na linha ofensiva durante o Draft, o que fará Duzão viver algo parecido com o que aconteceu em 2019.  No seu primeiro ano na liga, Miami foi atrás de defensive tackles, sua antiga posição. Agora que o brasileiro mudou para Guard, Miami adquiriu três jogadores de linha ofensiva no Draft – dois, inclusive, jogam na mesma posição do brasileiro.

“O time fez grandes escolhas, draftou jogadores da minha posição, mas não podemos ser egoístas. Eu só tô aqui hoje porque eu gosto de competir e a NFL é isso: competição”, comentou.

Apesar do grande desafio que será competir com novos reforços, o que está por vir não diminui a confiança de Durval em seu trabalho. Muito disso é baseado em como o brasileiro comenta o relacionamento que Brian Flores tem com seus jogadores: “Ele é um cara justo, que não dá liberdade para muita brincadeira e valoriza quem trabalha duro, quem compete”. 

Nesta intertemporada, Durval ficou treinando para manter seu condicionamento na IMG Academy, renomado centro de treinamentos no qual o brasileiro foi contemplado pelo programa internacional da NFL. Após se reportar para os Organized Team Activities (OTAs) e minicamps dos Dolphins de maneira diferente devido à pandemia da Covid-19, chegou a vez de Duzão participar dos Training Camps da franquia – principal preparativa para a temporada. E, apesar das incertezas que rodeiam o ano de 2020, a perspectiva do jogador é uma só: “Pelo tanto que a gente trabalha duro aqui, a única expectativa que temos é de jogar”.

Por André Martins e Bruno Nossig.

Autor: Intervalo em 5

Uma nova plataforma esportiva desenvolvida por 5 estudantes de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Outros ângulos do esporte.

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