“Quero voltar de Tóquio com três medalhas de ouro”: A trajetória da atleta paralímpica Lorena Spoladore

Medalhista muito jovem, Lorena deixou o balé para seguir no atletismo e sonha com a conquista máxima na próxima Paralimpíada.

(Fotografia: CPB/Arte: André Martins)

LORENA CONTAVA AS HORAS para o Comitê Olímpico Internacional (COI) se posicionar, aguardando ansiosamente a decisão sobre a situação dos Jogos de 2020. Sem sair de casa por causa da pandemia — ainda mais por São Paulo ser desde o início o epicentro da disseminação da Covid-19 no Brasil —, ela estava realizando os treinos em seu apartamento de 65 m². 

Acostumada a treinar até a exaustão, o treinamento caseiro angustiava a atleta. “Não tá dando certo, isso não vai funcionar”, relembra, em uma mistura de risada com desespero, das mensagens que enviava aos treinadores: “Na pista a gente treina horas, aqui eu estou treinando 40 minutos e mal consigo suar, não vai dar certo, não vai dar tempo”.

“Eu quase surtei, foram cerca de 14 dias até a decisão, foi uma tortura psicológica horrível”, desabafa. À medida em que boatos sobre o adiamento iam surgindo e potências do esporte (como o Canadá e os Estados Unidos) começaram a pressionar publicamente o Comitê, ela foi ficando mais calma. “Quando a notícia saiu, eu consegui respirar mais tranquilamente.”

Para a próxima edição dos Jogos, Lorena tem grandes ambições: “Quero voltar de Tóquio com três medalhas de ouro”. A atleta de 24 anos quer repetir a conquista do ouro, sensação que vivenciou pela primeira vez há sete anos.


DAS 16 MEDALHAS DE OURO conquistadas pela delegação brasileira no Mundial Paralímpico de Atletismo de 2013, na França, uma foi o triunfo de uma paratleta cega de 17 anos: Lorena Salvatini Spoladore.

Convocada naquele ano para representar o país no Mundial adulto, a jovem atleta conquistou o pódio no salto em distância da categoria T11 com a marca de 4,37 metros. E logo em sua primeira participação em competições internacionais. 

Junto da conquista, veio o sentimento — quase como uma necessidade — de honrar o título, de orgulhar não apenas a sua família como toda a nação: “Eu não sou mais aquela Lorena Spoladore, filha da Dona Zilda e do Walter. Agora sou uma medalhista de ouro, eu represento o Brasil.”

Mas essa inesquecível estreia não era imaginada nem mesmo por ela, que conta ter competido “sem a mínima pretensão”. “O Mundial de 2013 foi o divisor de águas da minha carreira”, relata Lorena, que até então treinava atletismo porque gostava, sem encarar como profissão. “Não tinha noção nem dimensão de quanto o esporte paralímpico era grandioso. Quando ganhei a medalha, vi a responsabilidade que estava em cima de mim”, relembra. 

Vídeo do Ministério do Esporte sobre o Mundial de Atletismo de 2013, na França.

Desde então, ela acumula pódios e sentiu diversas vezes a sensação de “dever cumprido” ao conquistar medalhas, inclusive em diferentes modalidades. Em 2015, foi medalhista de prata no salto em distância nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto (Canadá) e no Mundial de Doha (Catar). No ano seguinte, no Rio 2016, sua primeira Paralimpíada, ganhou o bronze no salto em distância e a prata no revezamento 4 por 100 metros.

O início de toda essa história foi traçado depois daquela primeira participação no Mundial, há quase 7 anos, em que a jovem Lorena escolheu de fato seguir a carreira do esporte. “Eu precisei decidir o que realmente queria fazer da minha vida, se estava disposta a me tornar uma atleta de alto rendimento, porque não é brincadeira. E graças a Deus eu decidi que sim, e tem dado certo.”

Lorena e seu guia, Renato Ben Hur, após conquista no Rio 2016. (Fotografia: CPB. Arte: André Martins)

O PRIMEIRO ESPORTE com que Lorena teve contato foi o balé, aos 8 anos de idade na capital de Goiás. Naquela época, ela já era totalmente cega há cerca de 2 anos, devido a um glaucoma congênito que foi lhe tirando gradativamente a visão. E fazia 4 anos que a futuro atleta, nascida em Maringá, vivia com a família em Goiânia, cidade para a qual se mudaram quando a avó materna faleceu.

“Era quem mantinha a gente no Paraná, porque minha mãe era muito apegada com ela”, comenta sobre a avó. Após a perda familiar, decidiram se mudar para a capital goiana, onde um tio residia e que conta com centros oftalmológicos de referência, como o Centro Brasileiro de Cirurgia de Olhos e o Instituto do Olhos. Antes, na cidade natal, Lorena tinha que viajar para São Paulo de três em três meses em função de seu tratamento.

Em Goiânia, começou como bailarina antes de iniciar no atletismo, e foi conciliando ambas as práticas durante a adolescência até ser convocada para o Mundial de Paratletismo de 2013. Sobre essa fase de sua vida, Lorena ressalta a importância de um professor de Educação Física que foi marcante para a sua carreira: “Foi quem me resgatou em uma época em que não queria mais treinar, e que me fez voltar ao atletismo antes do Mundial”.

A pessoa em questão é João Turíbio, então professor voluntário no Centro Brasileiro de Reabilitação e Apoio ao Deficiente Visual (Cebrav), quando conheceu a jovem atleta. “A importância foi, num primeiro momento, colocar o ‘Jaba’ na vida dela”, introduz Turíbio, atual gerente de Práticas Paradesportivas e Paralímpicas da Secretaria Estadual de Esporte, sobre seu papel na trajetória da atleta.

Na época, quando a garota estava começando a se destacar na modalidade, o educador indicou ‘Jaba’, seu aluno na Universidade Estadual de Goiás, para ser o primeiro atleta-guia de Lorena, e começou também a colaborar com o seu treinamento. A partir de então, ela passou a participar com regularidade de provas de atletismo em competições oficiais e não oficiais. Tudo caminhando bem, até que a lista de convocados para o Mundial de Paratletismo culminou no verdadeiro impacto de João Turíbio na carreira da atleta.

“O segundo momento de importância”, explica o professor de Educação física, “foi minha intervenção quando Lorena foi convocada para o Mundial de Lyon e Jaba, como guia, não foi”. O educador revela que, na ocasião, a atleta ficou muito chateada e o guia, na imaturidade, sugeriu que a jovem de 17 anos não fosse à competição ou blefasse na prova. “Foi quando intervi em conversa com ela e sua mãe e defendi que fosse à competição e desse o seu melhor”, esclareceu.

“Ela era uma guria que já apresentava maturidade de atleta. Lembro quando me disse que treinava para ser campeã mundial, isto ainda criança”, recorda. Lorena, então, foi à França e retornou ao Brasil com a medalha de ouro no salto em distância, além da decisão de seguir no atletismo. E, ao escolher o rumo das pistas, a jovem se separou da dança, antiga companheira: “Foi uma das decisões mais difíceis que tive que tomar, porque eu gostava muito do balé, mas meu corpo não ia aguentar as duas coisas. É humanamente impossível.”


COM O FUTURO ENCAMINHADO, Lorena, que vivenciou a realidade competitiva, percebeu a necessidade de ter um treinamento profissional para a carreira que escolheu. O fator geográfico na infraestrutura esportiva brasileira é uma condicionante de grande peso. Após consultar os treinadores da Seleção, ela decidiu se mudar para São Paulo aos recém completados 18 anos, despedindo-se de seus familiares que continuaram em Goiás.

Família, a propósito, é um tema que aparece várias vezes em uma conversa com Lorena. “A minha família é a base de tudo, sem eles eu não teria me tornado a atleta que me tornei”, relembra. Ao resolver ir para o Estado paulista, a atleta relembra, rindo, da reação da mãe: “Quando falei ‘Mãe, vou embora’, ela quase infartou, coitadinha”.

A mais de 900 quilômetros de distância, a jovem se instalou primeiramente em São Caetano do Sul, onde treinava no Clube de Atletismo BM&F Bovespa. Na cidade do ABC Paulista, em meados em 2014, Lorena conheceu Renato Ben Hur, seu atual guia, que estava começando na profissão e chegou para ser um atleta-guia reserva. No final daquele ano, a condição mudou.

Querendo trocar de guia, Lorena convidou Renato para ser seu novo parceiro. “Falei para ela que nunca tinha guiado e que ela seria a minha primeira atleta. E Lorena disse: ‘Vamos encarar juntos essa missão’. Então, a gente iniciou a parceria”, revela Ben Hur. Tal companheirismo já dura mais de 5 anos e acumula competições e medalhas.

Na opinião do guia, um dos sucessos da parceria é a boa relação e transparência, mas enfatiza a separação entre amizade e profissionalismo. “Dentro da pista, eu tenho que cobrar o máximo dela, tenho que fazer o papel de chato. Além do treinador, ainda tem eu”, comenta. Ele acredita que a motivação da atleta é ser melhor a cada dia: “Se faz um treino bom, no próximo quer fazer melhor, está sempre buscando evoluir. Lorena é guerreira, costumo falar que nem ela sabe a força que tem”.

Em 2015, Lorena ganhou uma dobradinha de prata no salto em distância, sendo medalhista tanto no Mundial de Doha quanto no Parapan de Toronto. Determinada, como reforça Ben Hur, a atleta não sossega até conseguir bater suas metas, e logo que consegue já estabelece novos objetivos. O guia destaca um dos momentos mais marcantes que passaram juntos: os Jogos Paralímpicos de 2016, realizados no Rio de Janeiro. 

“A gente já viveu bastante coisa, mas no maior evento esportivo do mundo, no Brasil, a gente estava em casa. Foi a nossa primeira competição deste tamanho, então foi especial nesse sentido”, recorda. Nos Jogos, Renato aponta que a dupla teve muito aprendizado e amadurecimento. Além, claro, das conquistas.

Assim como em sua estreia no Mundial, Lorena marcou presença no pódio logo em sua primeira Paralimpíada. E por duas vezes. Uma foi a conquista do bronze no salto em distância da mesma categoria. A outra veio no revezamento 4×100 metros da categoria T-11, junto ao guia Renato Ben Hur, que lhes rendeu a medalha de prata. 

Da competição, a atleta lembra que sua mãe “quase morreu”. Mas no bom sentido. Em sua venda, sempre personalizada, Lorena escreveu “Mãe”, e conta que Dona Zil mal conseguiu ver a corrida de tão emocionada com a homenagem. A outra recordação é a sensação da medalha no pescoço: “O sentimento de ganhar uma medalha paralímpica é de dever cumprido, de recompensa, de que todo o sacrifício valeu a pena e que consegui alcançar o meu objetivo principal, que é a medalha paralímpica”.


“PARA SEGUIR A CARREIRA DE ATLETA, a gente precisa abrir mão de muitas coisas na vida”, reforça, antes de introduzir o assunto família mais uma vez: “Às vezes eu passo seis meses sem ver a minha mãe. Por causa da rotina de treinos, é complicado sair de São Paulo para visitar a família em Goiânia”. Lorena treina de segunda a sexta em dois períodos, e ainda nas manhãs de sábado, no Centro Paralímpico Brasileiro (CPB) localizado na capital paulista.

Durante as seis horas diárias de treinamento, a atleta alterna entre exercícios de musculação, técnica, fortalecimento com fisioterapeuta e “tiros” nas pistas. Tudo com objetivos definidos: “Estabeleço com a equipe de treinadores a minha prova alvo, e todo ano a gente analisa as minhas marcas pessoais e o meu desenvolvimento durante o ciclo anual”.

A análise equipara os resultados pessoais da atleta com as melhores marcas registradas nas competições. A partir dessa comparação, os treinadores mensuram o percentual de melhora necessário nos índices da atleta para se tornarem elegíveis às medalhas de ouro e recordes mundiais nas modalidades em que ela treina. As metas miram no topo.

Lorena compete, atualmente, em três provas: salto em distância, 100 metros e 200 metros rasos. Apesar de possuir bons resultados e de já ter sido medalhista no revezamento 4×100 metros, ela decidiu parar de treinar para esta modalidade em 2017. “As minhas provas favoritas são os 100 metros e o salto em distância. Não adianta treinar e me matar para correr os 400 metros se eu não estou afim, porque o treino não vai ter o mesmo resultado”, comenta.

No entanto, tal decisão custou a vaga da atleta no Mundial de 2017 de Londres (Inglaterra). Lorena conta que não quis competir no revezamento 4×100 para poder focar e apostar nos 100 metros rasos, mesmo com as ressalvas dos treinadores e sabendo que a primeira modalidade estava mais fácil para se qualificar. “Como eu não consegui a evolução que eu precisava e não consegui atingir a marca nos 100 metros, não fui pro Mundial. São escolhas”, desabafa.

Só que Lorena, como ressaltam seus companheiros, não é a atleta que desiste. Dois anos depois, no Mundial seguinte, ela foi medalhista de bronze em Dubai (Emirados Árabes Unidos) pela primeira vez em provas individuais de pista, justamente nos 100 metros e nos 200 metros rasos. Além disso, também conquistou em 2019 o bronze na prova dos 200 metros nos Jogos Parapan de Lima (Peru) .

“Eu sempre admirei nela um poder de crescer nas competições”, revela Fábio, um dos seus atuais três treinadores, que a conheceu primeiramente como atleta adversária. “Nós começamos a trabalhar juntos no início de 2018 e eu pude identificar que o poder que ela tinha de crescer nas competições vinha muito do treinamento dela. Ela é uma atleta que dificilmente se dá por vencida”, comenta o integrante da seleção.

Com a performance e as medalhas de 2019, Lorena atingiu o índice para competir nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, programados para este ano antes do adiamento para 2021 em função da pandemia da Covid-19. “A gente não sabe como vai ser após a quarentena, mas temos consciência de que, devido ao seu treinamento, determinação e força de vontade, Lorena vai conseguir superar”, defende Fábio.


COM A MUDANÇA DE DATA  dos Jogos para começar no dia 24 de agosto do ano que vem, Lorena retornou para a casa dos pais, em Goiânia. Por enquanto, ela mantém uma rotina de exercícios para preservar a condição física, sabendo que o ciclo de treinamento terá de recomeçar após a pandemia. A atleta acredita que, passada a pandemia, se tiver um ano de preparação para a competição é um prazo suficiente: “Se manter condicionamento, cuidar da alimentação, pegar firme e se dedicar, dá tempo”.

Maior competição esportiva paralímpica do mundo, a Paralimpíada possui um grande impacto tanto para o fomento quanto para a valorização do esporte perante a sociedade. Lorena comenta sobre as expectativas para o público nos Jogos no Brasil: “Eu não imaginava que o estádio estaria tão lotado, fiquei surpresa. Estava muito cheio em vários dias e em várias finais, nós atletas ficamos enlouquecidos”.

Lorena percebe uma evidente mudança na forma com que o esporte paralímpico vem sendo destacado pela mídia e tratado no país como o grande legado da Rio 2016. “A diferença de quando eu comecei a competir, em 2010, para hoje, é muito grande. E tá crescendo cada vez mais. As pessoas têm outra visão, já entendem que ser atleta paralímpico hoje em dia é uma profissão e eles admiram muito” aponta, orgulhosa.

Para a próxima edição dos Jogos, Lorena sonha com o ouro em Tóquio, depois de ter sido medalhista de prata e de bronze no Brasil. “Estou sendo ambiciosa com meu treinador, já falei que quero voltar de Tóquio com três medalhas de ouro”, revela. Ao médio e longo prazo, ela pretende ser a detentora dos recordes mundiais nas provas dos 100 metros, 200 metros e no salto em distância. “Está tão perto, mas tão longe ao mesmo tempo”, completa, com a leve descontração de uma atleta que sabe onde quer — e que tem tudo para — chegar.

*Colaboraram: Bruno Nossig e Henrique Votto.

Leia também a história de Petrúcio Ferreira, o paralímpico mais rápido do mundo.

Autor: André Martins

Estudante 3º ano de Jornalismo ECA/USP

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