O paraolímpico mais rápido da história: Como Petrúcio Ferreira conquistou o mundo?

Após chegar ao topo do pódio no Rio 2016, velocista quebrou o próprio recorde no Mundial de Dubai e conquistou quatro medalhas de ouro em 2019

(Foto: CPB/Arte: André Martins)

A PROVOCAÇÃO PARA A CÂMERA faz parte de um ritual tradicional de todo velocista durante a apresentação de atletas, segundos antes de começar a prova. Ajoelhado com a mão sobre o queixo, Petrúcio Ferreira posa de forma séria enquanto tenta aliviar a pressão da final dos 100 metros rasos no Mundial de Dubai de 2019. 

Uma leve passagem da mão sobre o rosto transforma a seriedade em sorriso. Um gesto de destruição, arrancando ‘algo’ do braço esquerdo é seguido de uma provocação para o público: uma apontada para a câmera. Finalmente, ele parte para o famoso “meio coração” – que se tornou conhecido após a medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos do Rio em 2016. 

A confiança durante a apresentação caminha junto à expectativa de que o atleta paraolímpico mais rápido do mundo conquiste outra medalha. Mas nem mesmo o favoritismo faz com que a pressão diminua. 

“Às vezes eu sou um pouco ansioso”, comenta Petrúcio Ferreira. “Então, para me conter com tudo isso, eu acabo interagindo. Brincando com os colegas de seleção, ouvindo música, conversando com alguém da família. Focado na competição, mas tentando esquecer ao máximo o que eu vou fazer, para tentar chegar o mais descontraído possível.” 

A competição rendeu mais uma medalha para a coleção de Petrúcio, que além de vencer os 100 metros rasos, também conquistou novamente o título de atleta paraolímpico mais rápido do mundo, quando quebrou na semifinal o recorde mundial (que já era dele), ao registrar 10 segundos e 42 milésimos. A etapa de Dubai ainda renderia outra medalha de ouro nos 400 metros, com o tempo de 47 segundos e 87 milésimos. 

“Ao chegar no Mundial eu estava determinado a fazer um bom resultado. Acabei conseguindo e atingido um objetivo grande que tinha, que é me tornar o paraolímpico mais rápido do mundo”, revelou o velocista. 

Mas quem olha os resultados de 2019, que também lhe rendeu duas medalhas de ouro e uma de prata nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, mal sabe que o atleta imaginou que não iria conseguir competir. No dia 2 de janeiro daquele ano, Petrúcio fraturou o maxilar e quebrou dois dentes após pular e se chocar com uma pedra em um rio, no interior da Paraíba. 

“Foi um início de temporada bem difícil para mim, cheguei a passar três meses sem fazer nada. Fiquei dois meses só com alimento líquido porque não conseguia mastigar. Teve um momento que eu não acreditava que conseguiria chegar no Campeonato Pan-americano ou no Mundial. Devido ao acidente, eu perdi muita massa muscular. Enquanto todo mundo já estava bem adiantado na caminhada para o Mundial, eu estava atrasado,” revelou.

Ainda assim, o atleta conseguiu voltar a tempo para as competições e acabou sendo nomeado pela premiação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) como um dos melhores do ano. “Ele é muito competitivo”, afirmou Pedrinho Almeida, treinador de Petrúcio. “É um cara que gosta do desafio e já é uma pessoa muito motivada para competir. Diante de um desafio e de competidores mais fortes ou tão fortes quanto ele, mais motivado ele fica para enfrentar esses momentos”.

O jovem atleta de 23 anos, que nasceu em São José do Brejo Cruz, no interior da Paraíba, olha para o ano de 2019 com certo orgulho de ter enfrentado um dos momentos mais difíceis de sua vida. Hoje, ele se entrega de corpo e alma para o esporte, que mudou completamente a sua história: “Eu costumo a falar que de uma hora para outra a minha vida não deu uma virada, ela deu uma tremenda capotada”. 

“Coisas que eu só via pela televisão e tive a oportunidade de ver pessoalmente. Viajar para países que eu nunca imaginei viajar. Pelo esporte consegui dar uma condição melhor a minha família, aos meus pais. Dá uma dimensão da força que o esporte tem para mudar vidas”, afirma Petrucio.


COM APENAS DOIS ANOS DE IDADE, Petrúcio perdeu uma parte do braço esquerdo em um acidente com um moedor de capim. “Foi um pouco assustador para os meus pais, já que eu fui o primeiro filho. Eles ficaram se culpando sobre tudo isso. Eu sei que não foi culpa deles”, afirmou.

“Cheguei a sofrer preconceito, em alguns momentos eu tinha vergonha da minha deficiência. Por ser deficiente, tinha criança que comentava sobre o meu braço na época de colégio. Os meus pais sempre me mostraram ao máximo que isso não me fazia diferente de ninguém. Sempre ganhei força em tudo isso”, disse.

O primeiro contato com o esporte não aconteceu em uma pista de atletismo, mas com uma bola de futebol nos pés. O menino, que nunca gostou de ficar parado em casa e sempre buscava alguma atividade para fazer, alimentou o sonho de virar jogador de futebol, assim como o seu ídolo da infância: Ronaldinho Gaúcho. O amor pelo jogos de futsal e de campo, deu lugar às pistas de forma tardia, quando tinha 16 anos.  

Jogando uma partida de futsal em 2013, Petrúcio recebeu a proposta que mudou totalmente a sua vida e o futuro do esporte paraolímpico brasileiro: uma proposta para participar de uma etapa de atletismo. Na segunda competição, Petrúcio provou todo o seu potencial. Sem treinar sequer uma vez, correndo somente o que sabia com sua experiência jogando futebol, o atleta venceu a prova e foi convocado para a seleção de jovens.

Foi somente no ano seguinte, em 2014, quando tinha 17 anos, que Petrúcio se mudou para João Pessoa e investiu totalmente no atletismo. Nesta mudança, ele conheceu o seu atual treinador, Pedro de Almeida Pereira, que hoje em dia está salvo na sua lista de contatos como ‘Pedrinho Doido’. 

“Quando ele veio para cá, era um menino que não conhecia nada do mundo. Muito pobre, muito humilde. Não tinha nem um tênis”, contou o treinador e professor da Universidade Federal da Paraíba. “No dia em que os ele veio com os pais, eu tive uma conversa. Falei tudo o que poderia acontecer com ele, com sua vida, a partir do desenvolvimento do trabalho. Até hoje, eu não errei nenhum ponto dos que eu projetei. Isso aconteceu de fato, a mudança de 360º graus na vida dele. O esporte introduziu Petrúcio no mundo e hoje é esse destaque mundial.”

A mudança estratosférica na vida de Petrúcio Ferreira aconteceu dois anos depois, nos Jogos Paraolímpicos do Rio. O velocista deixou a sua marca ao conquistar o ouro nos 100 metros rasos na classe T-47, quando também quebrou o recorde mundial, registrando 10 segundos e 57 milésimos (naquele momento o recorde já era dele, pois o atleta havia registrado 10,67 nas semifinais).  

O resultado nos 100 metros rasos o colocou no topo do esporte e deu um desejado ouro para o Brasil nos Jogos Paraolímpicos, mas essa não é a única lembrança especial de Petrúcio em 2016. O atleta também faturou a prata nos 400 metros, uma segunda colocação que teve um gosto diferente, já que ele não estava ranqueado entre os melhores da prova. 

“Foi especial, mesmo não sendo a prova que era a minha favorita. Eu me aventurei.  Com os meus resultados não tinha nem condição de estar na final e, mesmo assim, consegui sair dos 400 com a medalha de prata,” relembrou.

(Foto: Alexandre Schneider/ Arte: André Martins

Pensando em Tóquio, na próxima edição da Paraolimpíada, os 400 metros viraram um foco de Petrúcio. Mesmo admitindo que não gosta da prova, o atleta passou a treiná-la desde de 2019 e, diferentemente de como aconteceu no Rio, entrará em Tóquio como um dos favoritos para subir ao topo do pódio, pois conquistou o ouro no Parapan de Lima e no Mundial de Dubai de 2019. 

O lado extremamente competitivo de Petrúcio faz com que ele consiga obter resultados expressivos em pouco tempo. A evolução nos 400 metros é só mais um exemplo de um atleta que em apenas três anos largou o sonho de jogar futebol para conquistar a medalha de ouro na Paraolimpíada de 2016. Mas, para o seu treinador, ele ainda não chegou na sua melhor forma.

“Existe uma diferença incalculável entre a corrida dele hoje e a corrida que ele fazia em 2014. Todas as qualidades que interferem direta e indiretamente no nível de performance, na mecânica e no desempenho, todas estão em evolução. Ele é um atleta em construção. Não está no seu plateau, que se diz: ‘A partir desse ponto ele não vai evoluir’. Vai evoluir bastante. Ele ainda tem 12 anos para fazer história no esporte paraolímpico, no mínimo”, opinou.


ENTRE UM VÍDEO DOS TRAPALHÕES no Youtube, uma brincadeira com os seus cachorros ou ajudando seu pai nas atividades do sítio no Rio Grande do Norte, Petrúcio Ferreira tenta se manter ativo durante a pandemia do novo coronavírus e no planejamento para Tóquio. 

“Quando eu não estou treinando, estou dormindo. Não consigo passar muito tempo parado em um local só e não consigo assistir filmes. Mas nesse momento tive que me adaptar ao máximo”, afirmou o atleta. 

Por conta da pandemia, que também forçou o adiamento dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos para 2021, o velocista voltou para o sítio que comprou para o pai no Rio Grande do Norte e tem feito os seus exercícios no local. 

A rotina de treinamentos também foi alterada. Com foco na saúde dos atletas e no aumento da imunidade, Pedro de Almeida passou uma sequência de exercícios com pouco volume e baixa intensidade, que devem ser feitos de sábado a sexta e por no máximo duas horas. 

  “Infelizmente, por conta da pandemia a gente teve que mudar a rota, suspender o que vinha sendo feito. Neste momento, a performance está em terceiro plano. Estou preocupado com a saúde e com o bem-estar dele e dos outros atletas que treino” afirmou Pedrinho, que além de treinar Petrúcio também comanda outros atletas de alto nível, como Jefferson Marinho de Oliveira e Cícero Valdiran Nobre.

Aproveitando o tempo de sobra na pandemia, Petrúcio retomou seu curso de Educação Física na Unisal, que foi necessário trancar por conta das viagens e das competições, que dificultavam a rotina de estudante. Agora, ele tem conseguido acompanhar as aulas da universidade.

A vontade de ingressar nos estudos e pensar na vida após aposentadoria foi despertada pela relação de Petrúcio com ‘Pedrinho Doido’. “É um cara que eu admiro muito pela sua competência, como ser humano e na forma como ele trabalha os atletas. Me despertou vontade de me tornar um treinador como ele é para ajudar a próxima geração”, afirmou o atleta.

“Meu relacionamento com o Petrúcio é o melhor possível”, afirma Pedrinho. “Ele é um dos melhores talentos que eu já tive. Foi uma das pessoas mais ricas em todos os sentidos com quem eu já trabalhei, entre outras que já passaram por mim e ainda estão comigo. É o ponto fora da curva, em termos de qualidade, de potencial e, assim vai…”. 

Petrúcio Ferreira comemora recorde mundial na final dos 200 metros rasos do Mundial de Londres 2017 (Foto: Divulgação).

VISANDO TÓQUIO 2021, Petrúcio sabe que os holofotes estarão sobre sua cabeça, com a esperança de que  “o mais rápido do mundo” seja capaz de trazer uma medalha de ouro para o Brasil. Mas, mesmo com toda a expectativa dos próximos Jogos Paraolímpicos, o atleta tenta não se colocar sob pressão. 

“Hoje eu faço o que eu gosto: estar treinando, competindo, representando o meu país. Tudo isso que eu faço é por amor e acaba não se tornando uma pressão para mim. Sei que chegando na prova vou enfrentar adversários fortes, mas tenho consciência que estou pronto para dar o meu melhor. E que meu melhor é subir no ponto mais alto do pódio”, revelou. 

Motivado a encontrar o seu limite e acostumado a quebrar os próprios recordes, o velocista ainda não sabe o que o futuro lhe guarda. Talvez uma medalha paralímpica nos 100 metros rasos em 2021 ou até o tão sonhado ouro na prova dos 400. 

Mas, independente do que acontecer, seja conquistando bons resultado nas pistas ou adquirindo sucesso como professor de Educação Física, Petrúcio sabe que a sua essência não vai mudar nunca: “Um cara alegre, sorridente, que gosta de andar sempre espalhando alegria.”

*Colaboraram: André Martins e Henrique Votto

Autor: Bruno Nossig

Sou aluno da ECA-USP, graduando em jornalismo. Joguei basquete quando menino e agora escrevo neste site. Meu twitter é @brunonossig.

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