Ainda segue sendo um sonho…

“Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”

(Arte: André Martins)

Em 1990, Will (protagonizado por Will Smith) e Carlton (Alfonso Ribeiro) eram presos pela polícia norte-americana na série Um Maluco no Pedaço por serem pretos. O sexto episódio da série, intitulado ‘Identidade Trocada’, criticava duramente o racismo estrutural presente na sociedade e, evidentemente, no modo como a polícia atua. Na série, o eterno uncle Phil, um advogado de renome, ameaçou processar o policial pela forma injusta que ele agiu, mas nenhuma punição aconteceu ao erro absurdo das forças de “segurança”. 

26 anos depois de Will ser preso equivocadamente, Colin Kaepernick ajoelhou durante o hino estadunidense em um campo da NFL. O quarterback protestava contra a morte de dois cidadãos pretos, Alton Sterling e Philando Castille, assassinados em ações policiais. Os protestos que tomaram conta nos Estados Unidos geraram avanços, mas Kaepernick não recebeu propostas ao final de seu contrato na NFL e segue desempregado de forma injusta. 

Na última quarta-feira (27), o mundo presenciou uma cena horrenda, que culminou no assassinato de George Floyd. O policial (agora ex-policial) Derek Chauvin colocou o joelho no pescoço do homem, sufocando-o até a morte. A cena é mais impactante quando George suplica por ajuda de sua mãe, que já havia morrido. 

O acontecimento gerou revolta da população estadunidense, com protestos que chegarão ao seu quinto dia seguido e que já levou milhares de pessoas às ruas em Toronto, Londres e Berlim. A morte de Floyd também tem conexão com o mundo do esporte, já que ele era um grande amigo do ex-jogador da NBA Stephen Jackson – amigos tão próximos que tinham o apelido de “gêmeos” um para o outro. Acredito que ninguém descreveu melhor a insatisfação da população do que o ex-ala:

“Quando um assassinato valeu a pena? Mas ele era um homem preto, então é aprovado. Você não consegue negar: quando aquele homem tinha o joelho no pescoço do meu irmão, com a mão no bolso, aquela expressão no rosto dizia: ‘Estou protegido’. Você não pode negar que ele sentia que fazia parte do seu serviço matar o meu irmão porque ele sabia que se livraria de punição. Você não pode negar que aquela era a expressão no rosto dele”.

“A diferença entre eu e o meu irmão Floyd é que eu tive oportunidade. Muitos de meus irmãos são tão talentosos, mas estão sentados nos guetos porque não tem oportunidade. E vocês se perguntam por quê estamos bravos? Não estamos só morrendo, também não somos alimentados (com oportunidades).”

Atletas da NBA e NFL reagiram e muitos se manifestaram nas redes sociais em apoio dos protestos e contra o racismo estrutural. J.R. Smith, Jordan Clarkson, Karl Anthony Towns, Jaylen Brown, Josh Okogie, Dennis Smith Jr., Tobias Harris e Matisse Thybulle participaram dos protestos nos Estados Unidos que tinham como frase principal “I can’t breathe” (‘Não consigo respirar”). Na Bundesliga, o volante americano Weston McKenzie (Schalke 04) usou uma faixa no braço, Marcus Thuram (Borussia Monchengladbach) comemorou os gols do último domingo (31) ajoelhado, Achraf Hakimi e Jadon Sancho (Borussia Dortmund) comemorou o seu tento levantando a camisa e mostrando o escrito “Justice for George Floyd” (Justiça por George Floyd).

As manifestações de atletas são extremamente importantes, algo que Kaepernick e LeBron James representam melhor do que ninguém. No Brasil, sofremos com essa ausência de liderança no esporte e, apesar de não ser tópico das grandes mídias, o racismo estrutural é um problema enorme também da nossa sociedade. 

Só no mês de maio, Ndeye Fatou Ndiaye, de 15 anos, foi vítima de mensagens racistas por colegas da escola. Um menino de 12 anos, Adriel Bispo de Souza, foi vítima de comentários racistas em seu perfil no Instagram @livrosdodrii, onde coloca suas resenhas e livros favoritos. 

João Pedro, menino de 14 anos, morreu em ações policiais no Morro do Salgueiro. O jovem foi vítima de um tiro nas costas enquanto estava na casa de um amigo. Os policiais deram versões conflitantes sobre o assunto, mas diferentemente do que aconteceu com Derek Chauvin, nenhum policial envolvido foi preso. O pior, é que as três histórias foram as que se tornaram públicas, muitas outras aconteceram sem a cobertura midiática necessária.

A questão não é exclusividade estadounidense ou brasileira. É um problema mundial e histórico, que precisa ser resolvido senão continuaremos perdendo mais George Floyds e João Pedros, enquanto meninas e meninos como Ndeye Fatou Ndiaye e Adriel Bispo de Souza continuarão tendo oportunidades negadas. Muitos tentam apontar os policiais que atuam de forma injusta como uma exceção, mas os Chauvins são extremamente comuns em nossa sociedade, o que torna o problema ainda mais grave.

Apesar de muitas pessoas ainda terem uma mentalidade retrógrada, acreditando que esporte e política não se misturam, o mundo está bem servido de atletas que se manifestam em questões de injustiça social. O símbolo criado por Colin Kaepernick nunca será apagado da história, a grandeza de LeBron James fora das quadras mudará milhões de vidas e a coragem de Lewis Hamilton pode alterar totalmente o posicionamento de um esporte. 

Mas há algo que não podemos deixar de esquecer. Desde o dia 23 de agosto de 1963, quando Martin Luther King subiu em um pódio para o famoso discurso “I Have a Dream” (“Eu tenho um sonho”), o mundo presenciou mudanças que eram desejadas pelo grande ativista. Mas, por mais triste que seja afirmar isso, boa parte do discurso segue sendo um sonho: 

“Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter” (Martin Luther King, 23 de agosto de 1963).

Autor: Bruno Nossig

Sou aluno da ECA-USP, graduando em jornalismo. Joguei basquete quando menino e agora escrevo neste site. Meu twitter é @brunonossig.

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