São Paulo de Diniz cria muito, mas erra na finalização. O que falta?

Tricolor inicia o ano muito mais ajustado às ideias de jogo do treinador e procura provar seu valor às vésperas da Libertadores

Em meio à tempestade tricolor, Diniz procura a calmaria (Arte: André Martins)

“Construir e ter prazer em jogar futebol. O time que cria mais e oferece menos chances é o time que está mais perto de ganhar. Perseverança e persistência no trabalho que os resultados virão.”

Estas palavras acompanham um vídeo, divulgado nas redes sociais do São Paulo durante a semana, repleto de oportunidades criadas pela equipe na partida contra o Corinthians, no sábado (15). O material é um verdadeiro manifesto da instituição em defesa do futebol pregado por Fernando Diniz; um apelo visual à torcida tricolor, que carece de paciência para enxergar os sinais de evolução do time. E que, após mais um empate melancólico, fez ecoar os infames gritos de “burro!” para o comandante no Morumbi.

Contratado com aval do elenco, Diniz ainda não caiu nas graças de toda a comunidade são-paulina. De fato, quando a posse de bola dominante se resume a passes improdutivos no próprio campo, o São Paulo fica desnorteado e perde da pior forma possível.

A melhor defesa do Brasileirão de 2019, com apenas 30 gols sofridos, sofreu derrotas retumbantes para Palmeiras e Grêmio sob o comando do treinador, ambas por 3 a 0. O revés contra o time gaúcho, inclusive, gerou uma das entrevistas mais polêmicas de Diniz no Tricolor, na qual ele declarou: “Se eu ficar aqui oito meses, é um time que vai jogar melhor do que o Fluminense no sentido tático, isso é seguro.”

Há, no entanto, o consenso velado de que o clube precisa apostar com urgência em um projeto a longo prazo. O São Paulo começa o ano de 2020 com muitos pontos positivos e acerta ao bater o martelo pela continuidade do treinador, mas ainda falta um ponto fundamental que, curiosamente, não deu as caras no vídeo-manifesto: o gol. E o roteiro de dominar o adversário, criar muito, errar pouco e, no fim, culpar o árbitro – com justiça – pelo resultado ruim, não será suficiente para sempre.

Após o empate em 0 a 0 no Majestoso, Diniz foi convicto: “Um dia, o São Paulo pode jogar mal. Ainda não jogamos no campeonato. Se acontecer um deslize em outro jogo, todo mundo esquece o processo. O futebol aqui não vai mudar enquanto não conseguirmos distinguir trabalho de resultado.”

Mas o Tricolor precisa de resultado, isso é inegável. E resultado, na teoria, faz parte de jogar bem. Então, o que está faltando?

Sinais de evolução X Problemas pontuais

Em 2020, o São Paulo tem 128 finalizações em seis jogos. Uma ferramenta de dados da ESPN cravou, antes do Majestoso, que o Tricolor é a equipe que mais finaliza no mundo entre as principais ligas de futebol em 2020, com média de 22,4 conclusões por jogo. A equipe está à frente da Roma (21,33), por exemplo, e dos rivais paulistanos – Palmeiras (18,8), em 9º, e Corinthians (15,33), em 30º –, levando em conta as cinco primeiras rodadas do Estadual. Ainda assim, são apenas seis gols marcados no total.

Lance por lance, fica bem claro que o problema do São Paulo é de técnica: falta alguém para empurrar a bola para o gol. De acordo com o SofaScore, o Tricolor já desperdiçou 16 grandes chances no Paulistão; em quatro das seis partidas disputadas, os goleiros adversários receberam nota maior que 8.0. Pablo, Pato e Vitor Bueno, que costumam ser os titulares do trio de ataque, têm, juntos, um gol na temporada até o momento.

A campanha de duas vitórias, três empates e uma derrota não é ruim. É correto dizer que, nas últimas três rodadas, erros de arbitragem prejudicaram profundamente o São Paulo. Contudo, isso não quer dizer que o resto foi perfeito.

Contra o Santo André, por exemplo, o São Paulo teve 78% de posse de bola, trocou 667 passes, finalizou 10 vezes no gol, mas só criou uma grande chance. Como se não bastasse, o segundo gol da equipe do ABC paulista aconteceu em um momento de grande desorganização defensiva do Tricolor. Com a Libertadores cada vez mais próxima, a falta de expressão da evolução nos treinamentos em resultado preocupa o torcedor – e com razão.

Diniz tomou decisões importantes neste início de ano para verticalizar o futebol da equipe. A principal delas foi o ajuste de posicionamento na saída de bola, feita em linha de três, com o recuo de Tchê Tchê entre os zagueiros e a abertura dos laterais, Juanfran e Reinaldo, em uma segunda linha como alas. Com Tchê Tchê na posição de primeiro volante, o São Paulo ganha qualidade de passe e presença ofensiva, apesar de perder força na marcação.

Daniel Alves e Hernanes se aproximam para oferecer opções na segunda linha central e contribuem tecnicamente para a transição rápida para o ataque. Mas falta velocidade, tanto para recompor na defesa quanto para contra-atacar. É possível que a volta de Igor Gomes, ausente durante o torneio Pré-Olímpico, traga o tão desejado dinamismo no meio-campo tricolor e diminua os buracos no posicionamento defensivo, mascarados por grandes defesas de Tiago Volpi e atuações de alto nível da dupla Arboleda e Bruno Alves.

Um resultado positivo contra o Oeste, neste sábado (22), é um bom início para o torcedor acalmar os ânimos e fazer as pazes com Diniz. Se o vídeo divulgado durante a semana é um manifesto, a vitória no Carnaval seria a bandeira branca. O São Paulo sabe que o momento não é apropriado para decisões precipitadas. O melhor caminho é apostar no tão elogiado trabalho de Diniz, que conquistou os jogadores e precisa conquistar os corações tricolores.

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