Sete coisas para gostar e odiar da Trade Deadline – com a esperada dupla D’Angelo-Towns

Miami Heat investindo em veteranos, os Warriors em modo reconstrução e Houston apostando todas as fichas no small ball

(Arte: André Martins. Foto: Getty Images)

O período de trocas da NBA chegou ao final. Antes da janela fechar, às 17h da tarde desta quinta-feira (06/02), as franquias fizeram suas últimas mexidas antes do Playoffs, enquanto algumas sem perspectiva de pós-temporada (Alô Warriors e Hawks), já iniciaram o planejamento para a temporada 2020/21.

A Trade Deadline de 2019/20 foi extremamente surpreende. D-Loading foi enviado dos Warriors aos Wolves. Clint Capela foi parar nos Hawks, enquanto os Rockets decidiram investir intensamente no small ball (Covington de pivô???). Miami se encontrou com Iggy e Crowder, e os Clippers adicionaram mais talento ao redor de Kawhi e Paul George.Em meio a tudo isso, tem gente tentando entender o que aconteceu em Detroit e Cleveland. 

Sem mais delongas, vamos ao que interessa:

1. O jogo de xadrez dos Warriors

Quando uma estrela como Kevin Durant vai embora, muitas franquias deixariam o tempo passar esperando uma reconstrução acontecer. Não é o que os Warriors fizeram. Logo de primeira, completaram um sign-and-trade com Brooklyn conseguindo D’Angelo Russell, e agora, transformaram o jogador em capital de Draft e Andrew Wiggins. 

Existe muita crítica por trás desta troca, mas no longo prazo, é difícil ver o lado negativo. Wiggins se encaixa mais facilmente com Steph Curry e Klay Thompson, principalmente na defesa, onde tem um potencial muito mais alto que Russell. E levando em conta que o ala nunca esteve dentro de uma cultura vencedora, há ainda mais esperança em relação ao aumento de sua produtividade. Sobretudo agora que ele não terá a pressão de ser o número “2” – assumirá a mesma função que Harrison Barnes tinha na fase dos Warriors pré-Durant.

Parece que os Warriors ficaram impacientes e não quiseram segurar D’Angelo, uma perda para quem ama basquete, já que seria interessante ver como Steve Kerr ia arrumar um time com Curry, Russell e Klay Thompson. Contudo, é um Warriors que pensa à frente, assumindo que a temporada acabou (último na conferência Oeste, com 12 vitórias e 40 derrotas) e já planejando o Draft e a intertemporada. 
Pensando que a franquia terá uma escolha de loteria no Draft de 2020, e saiu da Trade Deadline com uma escolha de 2021 protegida no Top-3 e com 4 escolhas de segunda rodada, fica difícil não imaginar uma temporada animadora de 2020/21 para Golden State, principalmente em uma franquia que acha talento na segunda rodada do Draft (Draymond Green e Eric Pascal que o digam).

2. A esperada conexão D’Loading-Towns

Finalmente aconteceu! Depois de muitos rumores que ligavam D’Angelo Russell aos Wolves na intertemporada de 2019, o jogador se junta a Minnesota para fazer a tão esperada dupla com Karl Anthony-Towns.

A temporada já acabou para o time, que senta na penúltima colocação da conferência Oeste, com um recorde de 15-35 e que novamente ficará de fora dos Playoffs. Mas a adição de D’Angelo Russell, que mostrou nos Warriors o mesmo talento que o levou a ser um All-Star nos Nets na temporada passada, cria um certo ânimo para o restante do ano.

O encaixe entre as duas estrelas será mais fácil, já que o armador é muito mais perigoso que Wiggins em jogadas de corta-luz e na isolação. Na defesa, a dupla de estrelas será o alvo principal dos adversários. Ainda assim, será revigorante ver essa combinação entre os dois. 

O resto da Trade Deadline foi facilmente uma vitória para o time de Minnesota. A franquia recebeu Malik Beasley, um ala-armador de 23 anos, com um aproveitamento de 38,2% de três. O espanhol Juancho Hernangómez também chegou, capaz de jogar como um ala-pivô espaçado no perímetro, já que tem um aproveitamento de 34,9% de três e liberaria mais espaço no garrafão para as gracinhas de Russell-Towns. A franquia ainda saiu com o veterano James Johnson, capaz de funcionar como um point forward, um promissor pivô em Jarred Vanderbilt e uma escolha protegida no top-20 do Draft de 2020.

Pensando que as principais saídas do time são Robert Covington e Andrew Wiggins, Minnesota deu uma bela mexida para chegar aos Playoffs da temporada 2020/21.

3. A assustadora defesa de Miami 

No começo da temporada, poucos imaginariam que Miami estaria nesta situação: na quarta posição do Leste (34-17), com três vitórias a menos que o segundo colocado Toronto. Fundado no sucesso de Jimmy Butler, na evolução de Bam Adebayo, nas ascensões maravilhosas de Duncan Robinson, Kendrick Nunn e Derrick Jones, Miami buscou experiência para se fortalecer para os Playoffs.

Perder Justise Winslow é um problema, já que o jogador tem um alto potencial defensivo e poderia ser um encaixe interessante no point-forward. Mas só de se livrar do relacionamento tóxico que a franquia adquiriu com Dion Waiters e do contrato insano de James Johnson, Miami caminha para a direção certa e alivia espaço no cap space para a Free Agency de 2021.

Pensando na pós-temporada de agora, o Heat possui um elenco agressivamente profundo. Andre Iguodala, Jae Crowder e Solomon Hill – mesmo que o último não venha a jogar tanto – são três bons defensores versáteis, que devem ajudar Miami a se encontrar defensivamente – o time da Flórida terminou como a 20ª melhor defesa de janeiro.

O grande problema da troca é o arremesso de três, já que Iggy nunca foi um excelente arremessador (com 33% de acerto na carreira), Crowder possui um aproveitamento de 32% na temporada e Solomon Hill, o melhor dos três, acerta cerca de 38,1%. Sabendo que Butler sofre com o perímetro este ano, acertando uma marca ridícula de 25,5% de três, fica difícil imaginar como Erik Spoelstra fará esse encaixe ofensivo. 

Só que o mais interessante é pensar como os adversários irão enfrentar o Heat, principalmente no final da partida, quando Miami tiver um quinteto extremamente eficiente na defesa, com Jimmy Butler, Kendrick Nunn, Iguodala, Jae Crowder e Bam Adebayo. 

Boa sorte para quem for enfrentar esta defesa!

4. O que está acontecendo em Detroit e Cleveland?

Sinceramente, eu levei um tempo até entender o que aconteceu nesta troca. Por que raios os Cavs quiseram assinar com Andre Drummond, quando já possuem um elenco recheado de pivôs em Kevin Love, Tristan Thompson e Larry Nance Jr.? E por que raios Detroit se livrou tão fácil de Andre Drummond, sem receber nada interessante em troca?

Em defesa de Detroit, o jogo parece estar deixando pivôs como Drummond em segunda escala. Mesmo quando eles produzem 31 pontos e 19 rebotes, como o jogador fez no seu último jogo pela franquia, a performance não parece tão dominante. 

A troca evidenciou o desespero de se livrar do contrato máximo do jogador, que recebe cerca de 27 milhões de dólares e que, se optasse pela extensão, receberia 28,75 milhões na temporada 20/21. Detroit precisava dar uma balançada no elenco que nunca deu certo ao redor de Drummond, e, talvez, isso seja um indício de que Blake Griffin deve jogar como pivô e que a franquia vai atacar forte a Free Agency para encontrar um parceiro para a sua estrela. 

Mas com todo o respeito, por mais coerente que seja a troca na atual era do small ball,  dava para conseguir um negócio muito melhor do que Brandon Knight, John Henson e uma escolha de segunda rodada do Draft.

Agora, quando parece que Cleveland tem um plano pós-LeBron James, a franquia mostra que não sabe o que está fazendo. É apelativo conseguir um jogador com a produtividade de Andre Drummond (17,8 pontos e 15,8 rebotes por partida) sem perder nenhum ativo importante, mas por que, Cavs?

Thompson parecia ser o veterano que ajudaria Garland, Sexton e Kevin Porter Jr. na reconstrução dos Cavs, enquanto Kevin Love seria trocado por ativos de Draft ou jovens promessas que impulsionariam o renascimento da franquia. Porém,depois da Trade Deadline, o time ficou com mais problemas.

O contrato de Kevin Love não bate com a sua produtividade, igualmente a Andre Drummond. Colin Sexton e Garland ainda não mostraram que podem funcionar como uma dupla de armadores, enquanto o time não resolve a ineficiência na posição de ala, liderada pelo turco Cedi Osman.
Será interessante acompanhar a loucura que se tornou a franquia dos Cavs, que regressa a tempos de pivôs dominantes no garrafão, quando a nova era sinaliza para um mundo do small ball e longos arremessos de três.

5. A última mágica dos Clippers

Vai ser difícil achar um erro na gerência dos Clippers de 2019/20. Sabendo que o time precisa vencer agora, a franquia apostou todas as suas fichas para adquirir Marcus Morris. O promissor Jerome Robinson foi parar nos Wizards, enquanto a primeira escolha de 2020, junto a uma escolha de segunda rodada e Moe Harkless, foram para os Knicks. 

O preço não foi extremamente barato ( principalmente para uma franquia que enviou sete escolhas de primeira rodada para contar com Paul George), mas Marcus Morris pode ser a peça final do quebra-cabeça. 

O ala entra para a lista de jogadores que impulsionam uma defesa, e, pensando na batalha de LA, o jogador será essencial na marcação de LeBron James e Anthony Davis. A defesa dos Clippers se torna assustadora com Patrick Beverley, Kawhi, George e Morris, enquanto o ataque ganha mais um arremessador confiável do perímetro – o ala-pivô acertou 43,9% dos arremessos pelos Knicks. 

O encaixe ainda terá alguns problemas. Morris costuma perder muito tempo com a bola na mão, não deixando o jogo fluir. Os Clippers possuem alguns jogadores que fazem isso, já que Kawhi e Paul George gostam de jogar em isolação e corta-luz, enquanto o pick and roll de Lou Williams e Montrezl Harrell é outro fator que impede que a bola flua novamente no ataque.

Se Morris aceitar normalmente a sua função no elenco, deixando a bola fluir no ataque normalmente, arremessando do perímetro e infiltrando quando a oportunidade surgir, os Clippers deram um salto interessante em busca do título. E se analisarmos a forma que o time é gerido, é a única coisa que importa.

6. Como ficaria o encaixe de Clint Capela com John Collins?

Bom, antes de mais nada, vamos resumir a loucura que foi a maior troca na história da NBA:

Não tem como não gostar desta troca se você é torcedor do Atlanta. Ficar com Clint Capela, com médias de 13,9 pontos e 13,8 rebotes por partida, é extremamente interessante. Isso porque, ao contrário de Drummond, o suíço ganha “modestos” 15,3 milhões de dólares por ano e ainda é muito jovem, com apenas 25 anos. 

O jogador foi extremamente eficiente na sua passagem nos Rockets, mas parecia não estar encaixado ao novo modelo com Westbrook-Harden, perdendo um pouco da sua importância. Os Hawks souberam aproveitar o desespero de Houston, colocando apenas uma escolha de primeira rodada, uma de segunda e o veterano Evan Turner na troca. 

O encaixe com Trae Young deve acontecer de imediato, uma vez que Capela já sabe o que é jogar com um armador acostumado a arremessar de três em qualquer oportunidade, que gosta de jogar no pick and roll e é capaz de acertar uma ponte aérea de qualquer ângulo.

O grande questionamento é como o encaixe de Capela e John Collins acontecerá. O suíço acaba contornando a ineficiência que Collins demonstrava na defesa, principalmente quando jogava de pivô e tinha que marcar o pick and roll. Era muito comum times aproveitarem os problemas defensivos de Trae Young e Collins, transformando os dois em alvos do ataque. Ter Clint Capela no garrafão é uma ajuda imediata. Para o novo arranjo defensivo dar certo a longo prazo, Collins precisa provar que é capaz de marcar alas e alas-pivôs.

No ataque, o casamento é complexo, mas pode ser perfeito. Tanto Capela quanto Collins são rim runners, que costumam correr em direção ao aro, sendo incrivelmente funcionais em pontes aéreas e aproveitando a explosividade dentro do garrafão. A esperança é que o ala-pivô possa ser mais eficiente no perímetro, abrindo o garrafão para Capela dominar. A média de 3,7 arremessos de três e o aproveitamento de 35,8% evidenciam que Collins tem o potencial para se tornar esse jogador.

O futuro em Atlanta ficou extremamente promissor, e a franquia tem um caminho bem encaminhado com Trae Young, Clint Capela, John Collins, DeAndre Hunter, Kevin Huerter e Cam Reddish. 

Vai ser legal acompanhar os Hawks em 2020/21 e além!

7. Bruno Caboclo e a aventura do small ball dos Rockets

Daryl Morey, General Manager dos Rockets, mostrou nesta Trade Deadline porque é adepto do MoneyBall. Para quem acompanha Houston, começou a perceber que Capela não achava mais o seu local em quadra. Os 13,9 pontos e 13,8 rebotes não tinham o mesmo impacto de antes, já que era incapaz de arremassar de três, espaçar a quadra e ocupava o espaço que Westbrook precisa nas suas infiltrações.  

O Real Plus-Minus, estatística avançada gerada pela ESPN, evidência por que Morey, amante de análises numéricas, quis trocar Capela para ter Robert Covington. O suíço não tinha a mesma eficiência de antes. Entre pivôs, o seu Real Plus-Minus defensivo ficava em 33º, com apenas 0,35 – marca que deve assustar Morey até agora. O Real-Plus Minus ofensivo é ainda mais assustador, com a marca negativa de -0,57, ficando na 46ª posição entre 65 pivôs. 

O encaixe com Covington será estranho no começo. O jogador deve assumir a função de marcar pivôs e alas-pivôs junto a PJ Tucker e, no ataque, deve abrir na zona de três, abrindo espaço para as isolações de Westbrook e Harden. Os Rockets serão o ápice do Small Ball, já que os únicos pivôs do elenco são os pouco utilizados Tyson Chandler e Isaiah Hartenstein. 

A chance de Bruno Caboclo jogar é agora. Vindo do Memphis, onde tinha participado de apenas 22 jogos, o brasileiro pode se tornar um pivô dentro da rotação, ocupando-se do garrafão na defesa e servindo como um ala no ataque, capaz de infiltrar em certos momentos, executar o corta-luz e usar os 2,06 metros de altura e os absurdos 2,32m de envergadura para pegar as ponte aéreas vindas de James Harden.

Ainda não sabemos se este Small Ball terá sucesso na NBA, mas podemos estar acompanhando uma revolução no basquete. Quem diria que ela poderia estar saindo da cabeça de Morey e de seu amor pelas estatísticas avançadas.

Autor: Bruno Nossig

Sou aluno da ECA-USP, graduando em jornalismo. Joguei basquete quando menino e agora escrevo neste site. Meu twitter é @brunonossig.

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